A Carolina do Norte<br>- Dois pesos e duas medidas

António Santos

Segundo a polícia, Keith Lamont Scott estava dentro do carro com uma pistola numa mão e um charro na outra. Já a família do afro-americano de 43 anos garante que Keith estava dentro do carro, com um livro na mão, à espera do filho no parque de estacionamento em frente à escola primária. Como fazia todos os dias. Pouco interessa, contudo, se a versão policial é verdadeira: na Carolina do Norte é legal estar dentro do carro com uma arma na mão e se a outra segurar um charro, tampouco se trata de um crime, mas de uma infracção menor. Mas não foi pela alegada arma nem pelo suposto charro que Keith foi condenado à morte, como não é só por Keith que a cidade de Charlotte está, há uma semana, sublevada, desafiando em protestos diários o recolher obrigatório e as metralhadoras dos soldados.

Sempre que nos EUA uma cidade explode de raiva, os principais órgãos de comunicação social vêm chorar as montras partidas, os caixotes de lixo injustamente incendiados, o papel higiénico roubado das lojas... Ficasse Charlotte na Venezuela e estava pintado um bonito quadro de legítima revolta popular, contra a escassez de produtos básicos e um regime; fosse em Cuba e já haveria Organizações Não-Governamentais a organizar concertos e campanhas pela libertação dos presos políticos durante os protestos; fosse a Carolina do Norte a Coreia do Norte e choveriam notícias sobre a brutal ditadura que usa o exército para reprimir e matar o seu próprio povo. Mas não sendo Charlotte na Venezuela, não veremos as fotografias de dezenas de pessoas, carregadas de papel higiénico, a sair de supermercados incendiados; não sendo em Cuba, nunca saberemos os nomes das dezenas de pessoas presas durante os protestos, e não sendo a Carolina do Norte a Coreia do Norte, ninguém falará em direitos humanos.

Ainda atrás de escravos em fuga

Importa compreender que a vaga de protestos que sacode Charlotte não é só uma reacção ao assassinato de Keith Lamont Scott: é uma luta para deter o assassino em série que, antes de Keith, matou Terence Crutcher, em Tulsa, Oklahoma, como já antes tinha assassinado Tyre King, de 13 anos, em Columbus, Ohio. Keith Lamont Scott não foi o terceiro nem o quarto caso: de acordo com o The Guardian, Keith Lamont Scott foi o 193.º negro a morrer às mãos da polícia nos EUA desde o início do ano.

A polícia de Charlotte, à semelhança do que se passa a nível federal, mantém-se, hoje em dia, fiel às suas raízes históricas: um corpo armado para capturar escravos em fuga. Completamente desligada da população que policia, a autoridade em Charlotte, como no resto do país, é desproporcionalmente branca, aufere uma remuneração três vezes superior à média salarial local e representa um autêntico sorvedouro de dinheiros públicos. No caso de Charlotte, o orçamento camarário para a polícia ultrapassa os 16 milhões de dólares anuais, mais do que a verba da cidade para a saúde e quase tanto como para a educação.

É neste sentido que a população de Charlotte, através de uma declaração pública assinada por mais de 200 dirigentes associativos, sindicais e religiosos da cidade, exige o «desinvestimento nas forças policiais», a «criação de um painel comunitário e democraticamente eleito para controlar a polícia» e uma «investigação independente a todas as mortes causadas pela polícia». Tanta matéria jornalística interessante, só faltava a Carolina chamar-se Coreia.



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